Riscos psicossociais e os efeitos da inteligência artificial no trabalho dominaram os primeiros debates do XXVI Congresso Brasileiro de Ergonomia e Fatores Humanos, promovido pela Abergo (Associação Brasileira de Ergonomia e Fatores Humanos) na Praia dos Ingleses, em Florianópolis (SC). O evento começou na terça-feira (3) e vai até sexta-feira (6).
A programação reúne fóruns dos Comitês Técnicos da entidade, sessões técnicas e cursos. Além dos dois temas principais, estão em pauta saúde mental, formação em ergonomia, usabilidade, diversidade e gestão estratégica, com espaço para experiências práticas e materiais de apoio aos profissionais nas organizações.
Material da Abergo leva fatores psicossociais à AEP e ao GRO
Logo na abertura dos trabalhos, o grupo técnico da Abergo que cuida de saúde mental e psicossociais no trabalho mostrou um material criado pela entidade para ajudar a incluir esses fatores na Avaliação Ergonômica Preliminar (AEP) e no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). As exposições trataram do conceito de risco psicossocial, de sua ligação com as condições e a organização do trabalho, das diretrizes da ISO 45003 e das interfaces entre AEP, AET e a avaliação desses fatores.
Também foi apresentado o Guia do Varejo, elaborado pelo Sincovaga, sindicato paulista que representa o comércio varejista de alimentos. Baseada nas NR-1, NR-17 e NR-7, a publicação orienta micro e pequenas empresas a estruturar o GRO e fazer a AEP, levando em conta as particularidades de cada negócio e usando instrumentos científicos validados.
IA muda relações e ritmo de trabalho
No fórum do comitê técnico voltado à inteligência artificial, os participantes discutiram como a tecnologia altera as relações e a organização do trabalho. Entre os riscos psicossociais citados estão o isolamento e a falta de reconhecimento pelos colegas.
Uma das propostas levadas ao debate foi a criação de comitês de ética nas empresas para orientar o uso da IA e identificar impactos sobre a saúde mental. Trata-se de sugestão discutida no evento, não de exigência legal. Os participantes também listaram pontos de atenção para o ergonomista: o ritmo imposto pelo sistema, a forma como as tarefas são repassadas à máquina, o esforço mental exigido, o desenho das telas e comandos, o trabalho de moderar e vigiar o que a IA produz, além do uso de dados e do consentimento.
O que isso significa para a empresa
Os guias apresentados são materiais de orientação. A base obrigatória continua sendo a NR-17, que já trata da organização do trabalho. Na prática, a norma determina que:
- a organização faça a avaliação ergonômica preliminar das situações de trabalho que demandam adaptação às características psicofisiológicas dos trabalhadores (NR-17, item 17.3.1), e que ela seja registrada (NR-17, item 17.3.1.2.1);
- a organização do trabalho considere, entre outros pontos, o ritmo de trabalho, a exigência de tempo e os aspectos cognitivos que possam comprometer a segurança e a saúde do trabalhador (NR-17, item 17.4.1);
- sejam adotadas medidas para evitar exigência cognitiva contínua e repetitiva que possa comprometer a segurança e a saúde (NR-17, item 17.4.3);
- os empregados sejam ouvidos na AEP e na AET (NR-17, item 17.3.8);
- os resultados da AEP integrem o inventário de riscos do PGR (NR-17, item 17.3.5).
Quem está implantando ferramentas de IA pode usar a lista do fórum como roteiro para revisar a AEP dos setores afetados, observando a carga cognitiva e a organização do trabalho. Para micro e pequenas empresas, vale lembrar que ME e EPP de graus de risco 1 e 2 e o MEI não são obrigados a elaborar a AET, mas devem atender aos demais requisitos da norma, quando aplicáveis (NR-17, item 17.3.4). A dúvida sobre qual avaliação fazer é tema deste guia: AEP ou AET, qual a empresa precisa.
Exame certifica ergonomistas
Em paralelo, foi aplicado na terça-feira o Energo (Exame Nacional de Competências em Ergonomia), que dá acesso à certificação da Abergo. Jacinta Sidegum Renner, que está à frente do SisCEB, o sistema de certificação mantido pela entidade, explica que a prova é anual, junto ao congresso, e pode ocorrer também nos CERERGOs (Seminários Regionais de Ergonomia), conforme o número de inscritos. É presencial, dura cinco horas e exige especialização acreditada pela Abergo. Cobre ergonomia física, cognitiva e organizacional, além de normas, legislação e diretrizes da entidade.
A certificação não é obrigatória para atuar, mas virou diferencial. "As empresas têm buscado profissionais certificados", afirmou Jacinta.
O congresso inclui ainda debates sobre mobiliário escolar, macroergonomia, acessibilidade, inclusão de pessoas com deficiência, indicadores, retorno do investimento em ergonomia e aplicações em óleo e gás, saúde e eletricidade. Quatro cursos tratam de métodos psicométricos, ergonomia estratégica, gestão dos riscos psicossociais e movimentação manual de pessoas.
Com informações da Revista Proteção. Foto: Revista Proteção.